NICKARY
- Elas são Elas

- 23 de jun. de 2021
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Atualizado: 24 de jun. de 2021

Em 2010, os brasileiros presenciaram a primeira posse presidencial de uma mulher na história do País. O filme Tropa de Elite alcançava o título de filme mais visto no Brasil, a Guerra do Iraque chegava ao fim e, ainda, o noticiário anunciava o pior terremoto da história do Haiti. Na cidade de Belo Horizonte, mais um acontecimento marcante dava início a uma nova fase: Nickary Aycker saía do sistema prisional e se reconhecia como mulher transexual.
"No final de 2010 e início de 2011, assim que eu saí do sistema prisional, eu consegui me entender como mulher trans. É um processo um pouquinho complicado, porque no momento em que você se identifica como tal, passa a assumir e reconhecer essa identidade, eu acredito que muitas coisas vêm contra", afirma Nickary.
Apesar de ter se assumido como mulher trans há 10 anos, Nickary conta que já havia descoberto a sua identidade quando nasceu. Mesmo rodeada de pessoas cisgênero, ela relembra que sempre teve comportamentos femininos e que, com o tempo, a feminilidade foi ganhando cada vez mais espaço e aceitação na sua vida. Entretanto, apresentar quem realmente é para o mundo não é uma missão simples para as pessoas transexuais, assim como não foi para Nickary. Ela relata que, com os amigos, o processo de inclusão foi fácil. Mas, na família, muitas pessoas ainda se mantinham presas à imagem do "menininho que nasceu".
O psicólogo brasiliense Felipe Medeiro conta que, assim como Nickary, a maioria dos pacientes que recebe em sua clínica não possuem apoio familiar. O tratamento nesses casos torna-se ainda mais complexo pois, muitas vezes, a relação que o paciente tem com a família é marcada por medo e dor.
"Muitas pessoas transexuais desistem da transição porque o mundo coloca tanto medo que elas não conseguem continuar. Eu sempre falo para os pacientes que existe a aceitação e o orgulho. Uma coisa é aceitar, outra é ter orgulho de quem é. O caminho entre os dois é muito longo. E o orgulho é afetado pelo medo de sair na rua, de apanhar, de não ser aceita e de ser reduzida a identidade de gênero", afirma Medeiro.
Felipe aponta que, para que o paciente se liberte das amarras do medo, o processo é extremamente individual, mas que possui um aspecto comum a todos: o foco na felicidade. Para não poluir a trajetória do paciente ou acrescentar mais uma parcela de aflição na sua vida, o psicólogo conta que busca sempre focar nos aspectos positivos da transição.
"Experienciar uma identidade que não é minha é um risco de suicídio. É se olhar no espelho e não se reconhecer. Então dar força para essas pessoas é fundamental. O desafio é trazer esperança e reflexões para mostrar que correr atrás dessa felicidade, a longo prazo, pode valer a pena", finaliza.
A transição de Nickary não foi um processo tão solitário dentro de casa, já que contava com a companhia de seu irmão, um homem transexual. Como um dos momentos mais marcantes da sua história, ela afirma, sem dúvidas, a aceitação da sua mãe sobre sua identidade e de seu irmão. "Eu e meu irmão conseguimos uma aliada, uma pessoa que está do nosso lado, nos defende e nos aceita", conta.
Os braços calorosos da mãe infelizmente não foram o suficiente para combater a transfobia sofrida por Nickary e enfrentar a realidade pesada que o Brasil impõe às pessoas trans. De acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 94,8% da população trans afirmam terem sofrido algum tipo de violência motivada por discriminação devido à sua identidade de gênero. O carinho da mãe de Nickary foi, porém, um combustível essencial.
"A sociedade acha que tem que determinar o tempo no qual eu e as minhas outras temos que viver. A gente já sofre transfobia desde o momento em que a gente acorda até o momento em que a gente vai dormir. Eu acho que para mim, particularmente, (o apoio da mãe) é a única coisa que preciso para enfrentar a vida, a transfobia, os olhares, o deboche e tudo das pessoas", declara.
A arte como transformação
Em 2008, antes da transição, Nickary pisava pela primeira vez nos palcos. Apoiada pelo amigo e artista Carlinhos Brasil, ela se apresentava como drag queen na extinta boate New Eros, em Belo Horizonte.
Foi a partir desse momento, com um cachê de 40 reais, que ela descobriu a sua paixão pelo universo drag e uniu o amor ao trabalho em 12 anos de história. "Hoje eu tenho a minha arte como a minha fonte de renda e eu amo fazer o que eu faço. Me dedico para oferecer sempre o melhor para o público, porque é isso que ele merece. O meu trabalho é feito para o público e não para mim. Então, há 12 anos eu me dedico à arte drag", conta.

Foi no universo artístico que Nickary conheceu a ONG Transvest, um projeto artístico-pedagógico liderado pela professora e ativista Duda Salabert, que tem como objetivos combater a transfobia e incluir travestis, transexuais e transgêneros na sociedade. Ela conta que a organização teve papel fundamental para que conquistasse as oportunidades da vida através do estudo e se tornasse quem é atualmente.
"A ONG me proporcionou essa oportunidade de me desconstruir, de olhar algumas coisas com outro olhar e outra forma de entendimento. Eles me deram a oportunidade de concluir o ensino fundamental, o ensino médio e até dar um pulo para entrar na faculdade. Isso foi muito bom para mim. Depois da Transvest, eu abri minha mente, a minha cabeça e muitas coisas se abriram para mim, inclusive várias outras fontes de renda", Nickary se orgulha.
Após a experiência como aluna, Nickary Aycker tornou-se uma das colaboradoras do projeto, apresentando palestras, rodas de conversas e trocando experiências com outras integrantes. Hoje, apesar de ter se afastado da ONG devido às suas necessidades profissionais, Nickary se mostra eternamente grata pela rede de apoio que construiu no Transvest e que leva todos os dias na sua caminhada.
"Eu precisei escolher entre estudar ou trabalhar para poder comer. Então, eu optei pelo meu trabalho, mas sempre que eu posso estou oferecendo o meu melhor para a ONG, porque a gente sempre tem que reconhecer e valorizar quem nos ajudou", declara.
Sobre a Transvest
A Transvest é uma organização independente originada na cidade de Belo Horizonte, sem fins lucrativos, que apresenta projetos pedagógicos, oficinas educativas e eventos culturais. O objetivo da iniciativa é incluir pessoas transexuais vítimas do preconceito e da exclusão social. Hoje, o projeto já conta com núcleos de psicologia, ensino de idiomas, aulas de defesa pessoal e apoio jurídico, além de ações no presídio de Bicas.
Conheça a organização: https://evoe.cc/transvest.
A Nickary
Nickary é divertida, de riso leve e, apesar da vida cobrar sem medo, consegue tirar o melhor das situações. A arte a inspira, a transforma e a mantém viva para continuar incentivando outras mulheres no seu convívio. Mesmo com pouco, conseguiu e consegue oferecer ao próximo o melhor que tem, principalmente o seu tempo.
Na Tranvest, lutou para mudar a realidade de outras pessoas assim como a sua e para garantir um futuro melhor para quem a acompanha na caminhada.
Confira dicas da própria Nickary para você, transexual, que está passando pelo processo de transição:



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