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LANA

  • Foto do escritor: Elas são Elas
    Elas são Elas
  • 23 de jun. de 2021
  • 4 min de leitura

Atualizado: 24 de jun. de 2021



Ativismo (s.m): qualquer argumentação que privilegie a prática efetiva de transformação da realidade em detrimento da atividade exclusivamente especulativa. Fonte: Dicionário Oxford Languages.

O ativismo carrega consigo um histórico de luta. Assim como Lana Larrá que leva na sua bagagem a história de centenas de mulheres transexuais ao redor do Brasil. Apesar da força, a trajetória de Lana não foi fácil. A ativista teve que aprender a resistir em uma fase em que estamos ainda em construção: a adolescência. Aos 14 anos, Lana foi expulsa de casa pela família e, desde então, trilhou o seu caminho de forma independente. "Eu não tive amor de pai, nem amor de mãe. Eu tive que aprender a sobreviver sozinha. Tive que aprender desde cedo a ser resistente e lutar por aquilo que eu acreditava", afirma.


Apesar de se reconhecer como mulher trans desde sempre, já que tinha comportamentos femininos e costumava brincar de professora com os saltos da mãe quando criança, a sua transição começou aos 14 anos. Após ser expulsa de casa, Lana acreditava que seria acolhida na educação e na escola. Infelizmente, Lana se encontrou mais uma vez sendo rejeitada pelas pessoas ao seu redor.


"O que uma pessoa expulsa de casa vai ter que fazer para sobreviver? A gente sofre preconceito na escola e acaba recorrendo ao mundo da prostituição. A sociedade não está preocupada com você. Ela não respeita quem você é. Ela está preocupada em cumprir um padrão hétero-normativo", relembra.


O pesquisador Stuart Hall estuda em sua obra "Cultura e representação" (2018) essa preocupação social em manter um padrão para fazer a cultura funcionar. De acordo com o livro, "uma cultura, para se manter estável, busca manter os estereótipos e eliminar ou recriminar qualquer coisa que não faça parte dele. 'O que desestabiliza a cultura é a matéria fora do lugar - a quebra de nossas regras e códigos não escritos'".


Lana Larrá e outras milhões de mulheres vivem isso na pele. Um dos momentos que marcou a sua história foi a rejeição de um motorista do aplicativo 99 Pop, que cancelou a corrida porque era evangélico e não poderia levar "pessoas assim" em seu carro.


"Quando eu entrei no carro dele, ele me olhou da cabeça aos pés. Disse que não poderia levar uma pessoa assim. Eu fiquei sem reação. Eu já tinha ouvido as piadinhas, as brincadeiras. Mas enquanto não vinham para cima de mim me agredir, estava ótimo. Mas eu nunca imaginei que isso acontecer", conta.

Ativismo


Com um histórico árduo, Lana concentrou as suas motivações em busca da felicidade no ativismo. Desde cedo, participou de movimentos estudantis que foram o pontapé inicial para a sua trajetória em busca da transformação da sociedade. Mas, Larrá percebia que precisava de mais. Ela queria lutar por vidas.


"Eu tinha que lutar por essas pessoas que estavam sendo assassinadas e comecei a estudar, a participar de formações políticas. Comecei a ir nos parlamentos, subir na tribuna e falar sobre essas vidas. Mesmo sendo preta, eu consigo chegar lá e falar: 'olha, prefeito, senador, essas vidas existem'", reforça.


"Eu tive que lutar", afirma Lana. Foto: arquivo pessoal.

Lana aponta que a maior satisfação da sua trajetória é ver que existem pessoas que se orgulham e se inspiram na sua luta. Foi assim que passou a se sentir acolhida, a alcançar lugares ainda mais altos e a questionar representantes políticos sobre a falta de empregabilidade, de educação, os riscos à saúde da população trans que não são amparados pelo governo e, ainda, sobre a necessidade de manter essas pessoas vivas com respeito e dignidade.


Hoje, Lana Larrá carrega o título de primeira Coordenadora Adjunta do Pará da Aliança Nacional LGBTI+, uma organização sem fins lucrativos que trabalha na promoção e defesa dos direitos humanos e cidadania, principalmente da comunidade LGBTI+. A ativista afirma que o caminho ainda é longo e que a representatividade ainda é muito pequena nos meios de comunicação.


"A mídia ainda é muito transfóbica. Quando uma pessoa trans morre, ela faz questão de colocar o nome de registro e não o nome social. Faltam pessoas trans nesses espaços. Na televisão, no cinema, no jornalismo. A gente não quer ser só dados, só pesquisas, a gente quer contar a nossa história. A gente quer nós falando de nós", enfatiza.


A importância da voz para as mulheres trans é enorme. É necessário mostrar que, assim como qualquer pessoa, elas se frustram, choram, sorriem, sentem dores e sentem felicidades. A força que demonstram para o mundo, o símbolo de luta e resistência não é tudo o que são, mas uma necessidade para sobreviver. "A todo momento querem nos apagar, acabar com a nossa história. A luta é necessária para mudar essas situações, para garantir as conquistas que ainda não temos", continua.


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Para finalizar a conversa, Lana aponta a necessidade do reconhecimento da mulher trans no feminismo e, principalmente, no convívio social.


"O que são as mulheres, de fato, nessa sociedade? Qual é a representatividade da palavra mulher? A gente precisa entender esse processo de discussão e de respeito a toda a diversidade de mulheres que existem. Não posso colocar a mulher cis como a única existente, porque existem as mulheres trans e a gente precisa garantir o respeito dessa diversidade de mulheres que existem. Assim como existem mulheres trans que são bissexuais, que são héteros, que são intersexo. Então, essa diversidade de mulheres precisa ser vista", finaliza.


A Lana


Conheça a luta de Lana pela sua própria voz.



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