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BIANCA

  • Foto do escritor: Elas são Elas
    Elas são Elas
  • 23 de jun. de 2021
  • 6 min de leitura


O amor e carinho fizeram de Bianca uma mulher forte e guerreira, que seguiu o caminho dos estudos e atualmente trabalha no Palácio do Buriti. A sua rede de apoio permitiu que ela se sentisse completa e orgulhosa de sua trajetória. A funcionária pública viveu um grande amor, do qual se recorda com muito carinho. Bianca é uma mulher trans de 51 anos nascida no Maranhão.


Em sua juventude, durante o período de descoberta do gênero, sua família, sempre atenta, reparou que existia algo de diferente com ela:


“Eu fui um rapazinho bem tímido lá no Maranhão e logo cedo eu já tinha aquela consciência de que eu tinha desejos diferenciados dos outros meninos masculinos. Portanto, como sou de uma família que tem 8 irmãos, bem de cara meu pai já observou meu diferencial dos outros filhos homens dele”, relembra.


A atitude dele tocou o coração de Bianca, porque o pai optou por não levá-la para atividades que eram consideradas masculinas. “Isso me emocionou porque não é o que a gente vê no dia a dia, os pais já começam aí os preconceitos, a bater, a humilhar e até expulsar de casa”, afirma.


Sua mãe também sempre teve um importante papel em sua vida, ela era sua maior companheira. Juntas gostavam de ir à missa e fazer atividades do lar. Bianca afirma que sua infância foi muito feliz por causa da união delas e por se sentir livre para brincar com outras crianças. Atualmente, a maranhense cuida de sua mãe diariamente, elas vivem juntas e são um exemplo de amor e cumplicidade.


A psicóloga Ataly Araújo relata que essa atitude está fora da realidade das pessoas trans e travestis. Segundo ela, a maior parcela dessa população passa por algum tipo de rejeição familiar e, durante a vida, escuta coisas horríveis de seus parentes. Ela afirma que esse tipo de trauma traz um impacto muito grande para a saúde mental das pessoas e se disponibiliza como rede de apoio para esses pacientes.


Durante a juventude, Bianca começou a descobrir sua sexualidade e, no primeiro momento, se considerava um homem gay. Nessa época ela também encontrou uma rede de apoio.“Eu tinha alguns amiguinhos que também tinham o mesmo estilo que eu, mais afeminados”, conta. Ela acredita que a sua pré-adolescência foi uma fase muito feliz e se considera sortuda por ter tido 5 amigos gays para acompanhá-la nessa jornada de autoconhecimento.


Aos 16 anos, Bianca sentiu o impacto do preconceito. A sua turma reparou que ela era a mais feminina do grupo e se afastaram. Os jovens, que Bianca acreditava que eram homossexuais, não entendiam a vontade dela de ser mais feminina do que eles estavam acostumados.


Nessa época a identidade de gênero ainda era um tema desconhecido e ela não sabia que existia a possibilidade de se tornar Bianca. A funcionária pública começou a performar sua feminilidade durante essa época da vida: “A minha roupagem era muito feminina”, relata.


O psicólogo Felipe Medeiro relata que esse período de começar a se apresentar com o gênero novo pode ser muito difícil. Em seu consultório, ele incentiva seus pacientes a tomarem os primeiros passos dessa mudança. Muitos se trocam no banheiro antes das sessões para se sentirem mais livres para serem o que são e, durante aquele momento, vivem a felicidade de se encontrar com o seu gênero se nenhum tipo de preconceito.


"Aqui dentro do meu consultório, eu falo para os pacientes que aqui é o nosso primeiro lugar de ensaio do novo gênero. Se quiser vestir uma roupa diferente, a gente trabalha em um ambiente seguro. Quer trazer um vestido? Traga. Performe o gênero que você se sente bem", afirma Felipe.



A mídia

Um dos fatores que fez com que Bianca não entendesse sua identidade de gênero foi a falta de representatividade da mídia. “Antigamente a gente não tinha discussão na televisão, a gente não tinha drags, a gente não tinha mulheres trans, a gente não tinha nada que a gente pudesse nos comparar e ter uma representatividade”, diz.


Apenas aos 18 anos Bianca pôde ver pessoas com a mesma identidade de gênero que ela na mídia. E, naquele momento, percebeu que “um rapaz poderia se transformar em uma mulher.” Foi aí que a sua busca por entender como era o processo de mudança de gênero começou. Naquela época ela sentia que se olhava no espelho mas não se enxergava.


Apesar de pouco explorado, o universo trans vem ganhando espaço na televisão e na imprensa. Em 2017, a Rede Globo lançou uma novela em seu horário nobre que tinha um personagem transexual, o Ivan. Um ano antes, o filme “A Garota Dinamarquesa'' recebeu indicações ao Oscar e chegou a ganhar em algumas categorias. O filme tem como enredo a descoberta da sexualidade de uma mulher trans.


O foco de Bianca, ao se reconhecer como uma mulher trans, foi contrariar tudo que a mídia falava sobre a transexualidade de maneira negativa e ser alguém na vida. Ela então se mudou para Brasília e passou em um concurso público do GDF. Durante os seus 31 anos no Palácio do Buriti, a funcionária pública relata que teve alguns momentos difíceis, mas foi lá que ela se tornou Bianca. Ela acredita que isso aconteceu pois ela trouxe uma nova cultura para o local: “Eu entendo a resistência, mas eu não me curvo”.


Sua primeira injeção de hormônio foi aos 22 anos. Bianca conta que por muito tempo pensou em ser apenas uma pessoa andrógina, mas percebeu que ela é de fato uma mulher. “Eu só consegui ser feliz quando lutei contra tudo e tomei minha primeira injeção”, afirma Bianca.


Outro fator que a deixava muito feliz era fazer parte da comunidade LGBTQIA+. Bianca acredita ter tido muita sorte pois foi aceita entre os héteros do seu trabalho e em boates gays, onde teve a oportunidade de fazer muitos amigos nas noites em Brasília.


De acordo com a funcionária pública, ela teve que passar por um processo de “autoinclusão”, e se jogou no mundo com a cara e com a coragem para realizar o seu “desejo incondicional de ser mulher” e ser aceita, pois tinha a "necessidade de olhar no espelho e se enxergar de verdade.”


Em 2009, ela passou por um momento bastante delicado e foi vítima de preconceito por ter o corpo feminino e o nome masculino. Após o momento, Bianca contou com a ajuda de diversas pessoas para auxiliá-la no processo de mudança de nome. Em 2011, ela oficializou em seus documentos o seu nome e sexo.



Naquela época, era necessário um laudo da cirurgia de redesignação de sexo para alterar o nome. Com a luta incessante da militância trans, hoje nada disso é mais necessário. O psicólogo Felipe Medeiros afirma que a pessoa se torna trans a partir do momento que ela se reconhece, não é necessário nenhuma mudança corporal para confirmar a identidade de gênero.


"É algo muito subjetivo e delicado. Não sou eu que faço a pessoa se reconhecer, é ela que precisa passar por esse processo de aceitação. Tem paciente que no meio da transição volta e fala que não se reconhece assim. Então a gente dá um passo pra trás, volta tudo, e começa novamente a busca pela identidade", contou.


O amor


Alex fez com que Bianca se sentisse uma "transexual amada". A linda história de amor durou 7 anos.

Bianca afirma que pessoas trans são "simplesmente mulheres que tiveram uma identidade diferente da de nascença, mas são apenas pessoas. Pessoas que amam, pessoas que sofrem, pessoas que querem ter filhos, pessoas que querem casar"... e ela casou. O grande amor da sua vida se chamava Alex.


Realizando o seu sonho de criança, eles viveram juntos por 7 anos. Ela relata que viveu a experiência completa do casamento: muito amor, brigas, ciúmes e um participou da família do outro. Nessa época ela se sentiu “uma transexual amada". A história foi muito intensa, mas curta, pois ele morreu jovem em um acidente. Bianca confia que Deus tenha feito isso pois tinha outra missão para ela: cuidar de sua mãe.



A Bianca


Bianca acredita que sua vida deu certo por causa do amor de sua família. Ela é profundamente grata a Deus por tudo que viveu. A funcionária pública afirmou que a única coisa que ela quer é o respeito.


Sobre o preconceito vivido ela afirma: “Base boa, como eu tive da minha família, a gente tira de letra esses detalhes para poder seguir em frente”. Bianca é formada em publicidade e pós-graduada em gestão pública, católica, funcionária pública, fã do Michael Jackson e do Prince.

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