KYARA
- Elas são Elas

- 23 de jun. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 24 de jun. de 2021
Kyara Zaruty, servidora pública do GDF
A vida da servidora pública da Secretaria de Estado e Atendimento à Comunidade do Distrito Federal Kyara Zaruty da Silva, 33 anos, foi marcada por conquistas pessoais muito importantes que a fizeram entender seus direitos como uma mulher e lutar por eles desde pequena. Nascida em Bauru (SP), com 7 anos já reconhecia sua identidade de gênero e entendia o peso que carregava nas costas.
Foi expulsa de casa aos 13 por falta de acolhimento do pai, que não aceitava a sua transexualidade. Foi morar com uma tia. Entretanto, anos depois, em 2019, o pai ficou doente e se viu obrigado a aceitar os cuidados da servidora. Em seu leito de morte, Kyara o ouviu dizer que sentia muito orgulho da filha.
“Vim para Brasília em 2017. No ano seguinte, passei a ter mais contato com a família, que na época morava em Formosa. Em 2019, meu pai teve um câncer no estômago e, depois de 14 anos sem falar comigo, foi obrigado a entrar dentro da minha casa e eu cuidar dele até o último dia de vida. Ele faleceu segurando a minha mão”, conta.

Quando chegou na capital, as boas-vindas não foram como ela imaginava. Em diversos momentos fazia apenas uma refeição por dia para se manter em pé, ou até mesmo passava fome. Teve que morar de favor na casa de pessoas da igreja que frequentava. E foi através da igreja que Kyara conheceu as pessoas certas e ajudou a fundar a Casa Rosa, em Sobradinho, espaço construído para acolher e dar assistência às pessoas LGBTQIA+.
Kyara superou todas as expectativas. De acordo com o levantamento realizado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), mulheres transexuais raramente têm oportunidades de se tornarem parte da sociedade, o que faz com que cerca de 90% das pessoas trans no país recorram à prostituição. Apenas 4% da população trans feminina se encontra em empregos formais, com possibilidade de promoção e progressão de carreira, e 6% estão em atividades informais e subempregos.
“Assim que cheguei em Brasília fui até a porta do Palácio do Buriti para pedir encaminhamento para dormir em algum albergue, porque eu não tinha para onde ir. Em 2019 a convite do vice-governador Paco Britto eu entrei no palácio como servidora”, relata.

“Cheguei nos espaços sem agredir ninguém”
Com lágrimas nos olhos, Kyara contou um pouco mais da sua trajetória dentro do serviço público. Pouco a pouco, ela conseguiu conquistar seu espaço dentro do emprego, mesmo com o preconceito ainda muito vivo dentro dos órgãos públicos, ambientes conservadores e machistas.
Passou por diversas cenas de preconceito veladas, mas nunca permitiu que isso tirasse sua alegria de viver. “Foi uma luta. Minha história e minha sobrevivência me levaram à militância. Cheguei nos espaços sem impor que as pessoas me aceitassem. Foi muito natural, eu comecei a respeitar os espaços de todo mundo, e eles viram a possibilidade que eu tinha de crescer”, relembra.
Um dos episódios foi muito marcante. A servidora destacou que um ex-chefe de gabinete não queria que ela tivesse interação com o público externo, porque tinha preconceito com a transexualidade dela. “Ele deixava nítido. Não queria que as pessoas me vissem. Ele chegou a me colocar em uma sala para trabalhar sozinha e não ter contato com as pessoas”, conta.
“Hoje me sinto realizada. E isso me gratifica muito, porque é muito difícil para outras pessoas trans. A minha realidade é muito diferente da maioria, e são duas pessoas iguais. O que falta é oportunidade”, ressaltou Kyara.
Empregabilidade e pioneirismo
A militância levou Kyara a lugares que ela nunca imaginou que pudesse chegar. Ativista, ela atua diretamente na área de empregabilidade de mulheres trans, e afirma que é um trabalho árduo que progride pouco, mas o suficiente para começar a fazer a diferença.
“Muitos empresários dizem que desejam ter uma pessoa trans dentro da própria empresa. Mas aí eu pergunto: ‘a sua empresa está qualificada para receber uma pessoa trans?’ Porque se eu trabalho em uma empresa e o dono gosta de mim, mas os outros funcionários são todos transfóbicos, como viver em um ambiente assim?”, questiona.

Ela opina que é necessário ter jogo de cintura e entender que para ser inclusivo não basta colocar uma pessoa transexual dentro de uma empresa, mas sim qualificar todos os outros funcionários para que diminuam os casos frequentes de preconceito e para a pessoa se sentir confortável no ambiente de trabalho.
Ela opina que é necessário ter jogo de cintura e entender que para ser inclusivo não basta colocar uma pessoa transexual dentro de uma empresa, mas sim qualificar todos os outros funcionários para que diminuam os casos frequentes de preconceito e para a pessoa se sentir confortável no ambiente de trabalho.
Outra conquista na vida de Kyara foi o fato de ela ter sido a primeira mulher do Distrito Federal a mudar o nome e o gênero em primeira instância e a terceira no Brasil. “Cada mulher tem sua própria identidade. Nós somos capazes, mas a realidade é para poucas pessoas. As pessoas não precisam me aceitar, mas precisam me respeitar. A mídia costuma retratar só o lado ruim da transexualidade, mas existe o lado positivo e o lado do sucesso. Isso precisa ser dito, porque encoraja outras pessoas a buscarem seus direitos e terem coragem para ser quem são”, finaliza.
A Kyara
Sempre bem humorada e com sorriso no rosto, Kyara é um exemplo de superação e liberdade. Ela gosta de participar ativamente da igreja e diz que "nunca foi sorte, sempre foi Deus".
A servidora é bem relacionada com todos os funcionários do Palácio do Buriti, os quais a tratam com muito respeito. Faz questão de ressaltar que as pessoas não precisam aceitá-la, mas que ela exige respeito de todos.



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