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LAYZA

  • Foto do escritor: Elas são Elas
    Elas são Elas
  • 16 de jun. de 2021
  • 5 min de leitura

Atualizado: 25 de jun. de 2021



Layza começou cedo sua busca pela liberdade, logo em sua infância a militante trans feminista reparou que não sentia atração por meninas e não gostaria de seguir o modelo padrão da sociedade: o sonho dela não era casar com uma mulher e ter filhos. Ela relata que sua infância foi boa, mas que teve que lidar com o preconceito.


Como qualquer criança, Layza gostava bastante de brincar. Sua mãe reparou que muitas vezes ela optava por brincadeiras que “não pertenciam” a ela, porém ela acreditava que aquilo não passava de atividade de criança. “Eu quebrava os carrinhos para roubar as bonecas da minha irmã”, conta.


O tempo foi passando e seu processo de autoconhecimento começou. Logo no início da adolescência Layza reparou que tinha algo diferente. Por volta dos seus 15/16 anos, sua mãe a questionou a respeito de sua sexualidade e ela se afirmou gay. Porém, notou que ainda tinha algo a mais. “Eu queria ser diferente, não era aquele corpo, aquela personificação, aquelas características”, afirma.


Na conversa, ela relatou para sua mãe que mesmo gostando de meninos, com aquelas vestimentas masculinas, não estava bem. "Comecei a experimentar uma maquiagem, isso com 16 anos, aí me afirmei: eu gosto dessa identidade”, afirma. Preocupada, sua mãe disse que sua harmonização só iria começar quando ela tivesse 18 anos.


Assim que atingiu a maioridade, a jovem escolheu ser chamada de Layza. Apesar de ser feliz por estar livre, ela teve que lidar com muitas dores causadas pela homofobia. A ativista era a melhor aluna da escola, mas teve que sair pois não aguentava o bullying.


"A minha transexualidade, a dor que passei com ela, eu transformei em luta", afirma. Foto: arquivo pessoal.

Todo o preconceito que a acompanhou por muitos anos foi ressignificado em sua vida. “A minha transexualidade, a dor que passei com ela, eu transformei em luta. Por isso vim para o movimento”, conta ela sobre sua entrada no ativismo.


Ao ser perguntada sobre sua idade, Layza contou um triste fato sobre a expectativa de vida de pessoas transsexuais no Brasil. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), a expectativa de vida dessa classe é de apenas 35 anos. Em 2020, a mesma associação relatou que o número de mulheres trans mortas aumentou em 41%. 175 vidas foram perdidas para o preconceito através do assassinato.



Passabilidade


Passabilidade é um termo muito conhecido pela comunidade trans. Ele se refere ao tanto que uma pessoa fica parecida com os traços pré-determinados socialmente para o seu novo gênero. Pessoas com alta passabilidade podem passar despercebidas pela sociedade: os indivíduos começam a enxergá-las e não perceber a mudança.


Para Layza, esse é um tema delicado pois ele vai além de performar o seu novo gênero. A passabilidade muitas vezes assegura que pessoas trans não sofram determinados tipos de preconceitos. Um dos fatores que auxilia nesse processo é a hormonização.


“O uso das terapias hormonais, que muitas das vezes nós fazemos por conta própria, porque o sistema de saúde não nos recebe e é preconceituoso. Toda essa performance de estigma de preconceito dentro do acesso público ao serviço de saúde fez com que eu me automedicasse”, conta Layza.


A falta de respaldo para orientá-la e dar o suporte necessário fizeram com que Layza tomasse decisões muito drásticas em sua vida. A ativista fez o uso de hormonização por conta própria e entrou para a estatística que afirma que 90% das pessoas trans e travestis entram para o mundo da prostituição, de acordo com dados da ANTRA.


“Dentro desse processo da reafirmação da minha identidade, eu, como todas as pessoas trans, tive que me prostituir porque ninguém ia me contratar para um serviço formal. Eu tive que entrar no mundo da prostituição, tive que fazer o uso de medicamentos específicos, tive que tomar hormônio por conta própria”, relata.


A ativista afirma que a questão da passabilidade é algo individual e depende da vontade de cada um. “Para reafirmar a nossa identidade, no meu ponto de vista como mulher trans, ativista e feminista, reafirmo a feminilidade em todos os processos. Ser passável ou não, isso não importa. Reafirmamos as identidades femininas em qualquer contexto”, assegura.


Um dos sentimentos que Layza afirma ser causado pela nossa sociedade é o da vulnerabilidade. “Ser uma mulher trans é ser alvo constante do machismo, dessa hipersexualização. É ter como fonte de sobrevivência a prostituição, é ter os seus direitos como cidadã negados”, conta.


Essas questões geram o apagamento de muitos futuros. Layza sempre foi bastante elogiada por professores e coordenadores. Porém, só terminou o ensino médio no ano passado e pretende entrar na faculdade esse ano, lutando contra todas as barreiras.

Mas, para ela, ter a liberdade de ser e de performar o seu gênero é a sua maior alegria.



Como mulher ativista, a sua vontade não é ser apenas livre, é também libertar. Layza acredita que mulheres trans devem ocupar todos os espaços da sociedade e batalhar por suas causas políticas. “Usar o meu corpo, a minha luta para adentrar ao meu lugar que é de direito é muito importante”. A sua luta não é só por ela, é pelo espaço e visibilidade de todas.


Religião


Layza se afirma católica e cristã, mas acredita que a igreja tem que mudar. No começo de sua transição, por causa do medo e de olhares preconceituosos, ela evitava frequentar as missas. Para continuar exercendo sua fé, ela decidiu visitar o espiritismo, casas de umbanda e de candomblé.


A fé, segundo ela, é algo negado para pessoas trans pois, em muitos casos, isso é utilizado como ferramenta para o preconceito. Layza define o cristianismo com uma frase usada por Jesus: ser cristão é amar uns aos outros. Ela ainda afirma que muitas igrejas, em sua maioria evangélicas, não cumprem esse mandamento.


“Ter a nossa fé, sendo pessoas LGBTs, é muito difícil, porque em todos os tempos isso é renegado. Simplesmente não posso amar e acreditar em Deus. A gente está burlando isso através de igrejas inclusivas de diálogos com os bispos e com o santo padre”, aponta.

Apesar de sua busca, Layza voltou para a igreja católica pois é lá que ela se sente acolhida, principalmente pela ala progressista que afirma que “todos são filhos de Deus”. Porém, ela acredita que ainda falta muito para se sentir completamente aceita. O Papa Francisco é uma grande referência para ela por olhar as pessoas que estão em estado de vulnerabilidade social.


A ativista relata que em sua igreja não sofreu tanto preconceito e serviu sua comunidade local em festas juninas, voluntariados e auxiliou em ações beneficentes. Mas na igreja protestante foi diferente. Layza relatou um caso muito triste de preconceito vivido, onde sofreu uma violência pelo filho do pastor.


Nesses momentos difíceis, Layza pode contar com uma rede seu apoio. A mãe, por exemplo, sempre se mostrou amável e presente. Ela afirma que sua mãe sofreu bastante pois sabia que a vida não seria fácil para ela. Sua família, como um todo, se mostrou muito aberta e nunca teve preconceito com a sua identidade de gênero. Layza acredita que é uma mulher muito privilegiada.


“Eu consegui ter uma família que me aceitava, eu consegui impor a minha identidade nos espaços sem ser agredida. Eu consegui ter uma família que me aceita sem ser expulsa de casa, eu consegui vencer o problema da prostituição sem ter que usar drogas. Eu consegui terminar os meus estudos, eu consegui ter esse emprego”, celebra.

A Layza


Ela é uma mulher trans, feminista, católica e ativista. Ela gosta muito da música “Mulheres”, de Martinho da Villa. Ela defende que ninguém tem que voltar para a senzala, ninguém tem que voltar para a cozinha e ninguém tem que voltar para o armário.


Layza espera que nós todos sejamos sementes de mudança. Para a ativista, ser trans é ser resistência. Não é fácil, mas vale muito a pena.

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