O debate da sexualidade na medicina
- Elas são Elas

- 23 de jun. de 2021
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A população LGBTQIA+ já compõe a sociedade desde seus primórdios. O termo, porém, começou a ser discutido e a trazer amplitude em meados da década de 1980. Na medicina, o debate sobre sexualidade e inclusão também é recente, fazendo com que essa parcela da sociedade se encontrasse ainda às margens quando o assunto é saúde. Bruno Stelet, médico da Família e Comunidade e um dos autores da cartilha LGBT, em entrevista para o projeto Elas São Elas, comenta sobre o desenvolvimento do debate LGBTQIA+ na medicina e a importância da inclusão social desse grupo nas áreas de saúde, em especial no SUS.
Bruno Stelet discorre sobre os principais desafios na atuação médica no Distrito Federal e a importância da defesa do SUS.
Bruno começou a sua trajetória no Rio de Janeiro, no bairro de Manguinhos, um dos piores PIBs da cidade. Mesmo sendo gay, Stelet percebia desde o início da sua caminhada que as consultas como médico da família eram heteronormativas. A cada novo paciente que recebia em seu consultório, as questões de sexualidade eram pressupostas com base em conceitos tradicionais e, muitas vezes, não questionadas.
Há seis anos, Bruno Stelet colaborou com a criação do GT de Gênero, Sexualidade, Diversidade e Direitos, um grupo de trabalho médico que começou a fazer discussões iniciais sobre o tema no País.
"Fizemos o primeiro congresso em São Paulo e foi um encontro total entre médicos de família, estudantes, residentes, que também faziam parte da comunidade LGBT da medicina, onde começamos a conversar sobre isso. [O GT] foi uma surpresa para todo mundo, porque vimos a quantidade de temas que a saúde ainda não estava discutindo. Eu acho que já tem muita gente na assistência social discutindo sexualidade. Mas, até isso chegar na clínica, demorou um pouco mais", declara.
O médico aponta que a criação de grupos e núcleos dentro da sociedade médica é fundamental para a evolução do movimento LGBTQIA+ e para a inclusão dessa população em uma área que é de direito a todos: a saúde. Hoje, em seu consultório, Bruno já levanta discussões com o paciente sobre o tema para que ele se sinta acolhido e pronto para cuidar do seu corpo.
"Hoje, quando chega uma mulher no meu consultório, eu pergunto a ela: você está ficando com alguém? É casada? Com uma resposta positiva, eu vou perguntar se ela está namorando com homem ou mulher. A partir disso, a gente vai construir uma conversa que tem a ver com a sexualidade. [...] A gente precisa mostrar para os profissionais que eles precisam perguntar coisas simples como essas nas consultas para ajudar a dar visibilidade a essas questões ampliar o debate da sexualidade", conta.
Cartilha Mitos e Verdades sobre Saúde da População LGBTIA+
Com foco na missão de ampliar esse debate, Bruno Stelet foi um dos criadores da Cartilha Mitos e Verdades sobre Saúde da População LGBTIA+, um livro que surgiu dentro do SG da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade para desmistificar uma série de ideias sobre essa minoria e popularizar o tema com uma linguagem acessível.

"Nós nos dividimos por áreas de interesse ou por conhecimento sobre cada uma das letras que compõem a sigla LGBTIA+. Criamos perguntas sobre os mitos da saúde dessa população e trouxemos explicações com base em estudos científicos e debates de movimentos sociais com uma linguagem inclusiva. A experiência foi muito legal. Às vezes, pessoas que não estavam atentas para essas questões da sexualidade dentro da medicina apareciam no dia a dia com interesse sobre os cuidados da população LGBTIA+", relata Bruno.
Stelet reafirma a necessidade de evolução na medicina com um objetivo: dar atenção ao próximo. O médico da família aponta que o método clínico deve ser centrado na pessoa para que se possa continuar evoluindo em direção a uma sociedade mais igualitária.
"Eu posso ser gay, hétero ou trans, mas eu vou sempre defender a pessoa que está na minha frente. [...] Eu espero que, com os anos, a gente vá aumentando a possibilidade de médicos e médicas héteros também fazerem conexões com pessoas LGBTs dentro do consultório", finaliza.
Acesse a cartilha completa aqui: www.sbmfc.org.br/wp-content/uploads/2020/07/Cartilha-LGBTIA.pdf.


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